Sinto em mim o teu corpo completo. Sinto a volúpia do teu cheiro nas minhas narinas. No meu corpo nu desliza ainda a tua pele e sinto, sinto por entre os meus dedos os teus cabelos deslizar, o teu corpo. Sinto-te caminhar por entre os degraus das velhas ruas deste porto, na procura de uma pedra onde pousar. Na janela procuro na rua um rasto teu que eu possa seguir.
Agora que é frio estar dentro da cama, miro meu rosto no espelho que envelhece e enrudece à medida que os anos passam. Abro lentamente a torneira e fixo a água que se dirige rumo às profundezas dos esgotos que varrem a cidade, a àgua fria que me estremece a pele, mas não me faz acordar. Fixo de novo meu reflexo enquanto pequenas gotas de àgua pendem do meu queixo. Procuro por entre a barba, que cresce lenta, uma marca de ti, uma ruga, um sinal que não estivesse em mim antes de ontem. Agarro na toalha branca que pende em seu suporte e limpo a cara. Ouço um chilriar que entra por entre as portadas de madeira pesada das janelas. Sinto os pés descalços.
Começo a sentir o cheiro do café invadir subtilmente o ar da casa. Pego numa chávena e verto o líquido castanho enquanto ouço claramente o seu som, como se fosse a música apocalíptica de cada manhã. Perdido por entre pensamentos já de si perdidos, sinto meu corpo relaxar de encontro com a cadeira.
Já mais desperto relembro de novo a noite que passou um pouco rápido demais. Relembro o teu corpo, o teu cheiro. Recordo a silhueta da tua anca escondendo o sol que entrava pela janela. Recordo a tua calma que pareceu ser a minha. Puxo de um cigarro e inspiro profundamente. O ar revolto em meus pulmões acalma meu corpo.
Olho no vazio e sinto mais um dia passar.
2 comentários:
Com uma calma feliz eterna...que a espero que a consigas e sintas.
Abraço forte.
Já vi que o cigarro é recorrente. Cuidado com os pulmões que só tens dois e eu não te empresto os meus.
Um abraço
Enviar um comentário